Ano da França no Brasil, texto de abertura do sarau
França- por Eliane Ratier para o sarau Paraler, 14 de setembro de 2009
Mostrar a influência da cultura francesa no Brasil é tarefa gigantesca.
Não fomos descobertos pelos franceses. Embora a liberalidade sexual seja à eles atribuída, andávamos na época do descobrimento (será que vem daí o termo?) bem mais despidos e despudorados, além de diariamente banhados, o que não é um hábito, digamos, muito francês. Nem colonizados por eles, mesmo que tenhamos incorporado vários de seus vocábulos na nossa língua, termos adotado o uso e cobiça de seus perfumes, termos nos submetido à sua ditadura da moda e degustemos com prazer pratos de sua cozinha. Sofremos apenas umas passageiras invasõesinhas militares, no Rio de Janeiro e no Nordeste, em épocas longínquas. Um ou outro imigrante , apareceu mais tarde, com sua habilidade específica, chef, modista, coiffeur, madames, e cocotes.
Mas o fato é que sua cultura e costumes estão embrenhados nos nossos mais corriqueiros atos
Comer pão francês, ainda que à brasileira como lamenta o Olivier Ankier, é nossa rotina matutina e se der sorte, pode ter até um croissant.
Escolher o traje para a festa de debutantes, que traz no convite, um RSVP, e pede traje habiller, nos coloca numa sinuca de bico. Salto alto, invenção da monarquia francesa, é obrigatório; lingerie certa; saia godê de crepe madame, evasê de patou de seda, gola roulê em liganete. Echarpe é démodé?
E na dita festa , tome champanhe e patê.
Se for comer fora, num restaurante, será recebida pelo maitre, sentará à mesa já posta, com um sem fim de copos e talheres, chamará o garçon, pedirá o menu, a sugestão do chef, a indicação do vinho pelo sommelier, dispensará o couvert, dará uma olhada no buffet, ou resolverá pedir à la carte, um filet au poivre, com champignon, à chateaubriand, com maionese, e de sobremesa mousse, torta, crepe.
Viu? Falou francês o dia inteiro, e ainda não acabou, chame um táxi e dê o endereço ao chofer:
- Onde vamos?
- Campos Elíseos, por favor.
Até bem pouco tempo atrás, o francês era a segunda língua ensinada nas escolas, hoje é o inglês.
O chique era falar francês, e penso que ainda é um charme.
Recitar poemas na língua sussurante é conquista certa do amante, mesmo que ele não entenda muito mais do que o “mon amour”.
Agora, se você resolver fazer umas aulinhas de balé, minha amiga,garanto-lhe que é o mais árduo embora prazeroso, curso de francês da atualidade.
O francês é a língua oficial do balé, pliê, por de brace, elevé, entourné, pás de bourrer, glissade, arabesque, tandu, degagé, sault de cheval, pás de chat, devant, derriére, sissone, unfacé, pas de deux, ufa!, etc...
Dia seguinte você me conta.
Mas, ao contrário do que possamos pensar, esta cultura não nos foi imposta, nós e´que a estamos à buscar através das sucessivas invasões que fazemos desde o século 19 ,quando os filhos dos abastados eram para lá mandados para estudar, e traziam alem do diploma o gosto pelo absinto, saudade da boemia, dos cabarés, e olheiras até os pés.
Até hoje, se podemos, fazemos como Danuza Leão e Fernando Henrique Cardoso fazem, quando precisam respirar ares mais civilizados, escolhemos Paris, berço de pensadores, ícone da liberdade, convite ao amor, em forma de cidade.
Paris é a cidade romântica do nosso imaginário coletivo: a torre Eiffel, o bateau mouche no Sena, mesinhas nas calçadas dos cafés.
Museus, castelos, jardins, nobres e trovadores, são parte da história e de estórias de nossa infância.
Em contra partida, a França tem recebido, nutrido culturalmente, e apreciado, muitos de nossos artistas .
A música brasileira é ouvida por toda parte. Bossa Nova, tribalistas, seu Jorge, nas Galerias Lafayette.
Há brasileiros no Louvre.
O Brasil esta lá, a França está aqui.